Manual Pratico do Vampirismo

Similia Similibus Curantur

Nesse momento o Dr. Paul René deu um gemido abafado e apertou o próprio peito, contorcendo-se de dor. "Coração", pensei imediatamente e rapidamente tomei sua mão esquerda e apertei profundamente o ponto focal de energia situado entre o dedo polegar e indicador. Com a outra mão localizei imediatamente um dos pontos do fígado entre suas costelas e orientei-o na respiração e relaxamento. Aos poucos ele foi relaxando e a crise passou. Mas não aceitou minha sugestão de interrompermos a narrativa. Então pedi à Senhora Ana René diversos copos de cristal, um bastonete também de cristal que Dr. Paul deveria ter entre seus equipamentos e água. Tomei então uma gota de saliva dele e dinamizei-a cuidadosamente, conforme os processos das escolas tradicionais para casos de emergência. Em seguida, apliquei uma gota em cada olho do paciente. Dentro de algum tempo, ele já estava em condições de continuar mais confortavelmente.

"Tendo voltado para cá, retomei meus trabalhos rotineiros como médico, mas sempre pesquisando e procurando indícios que me dessem a certeza de uma pista para localizar o dominicano. Consegui, no entanto, informações preciosas que fui cuidadosamente arquivando e entreguei para o Senhor. Principalmente com relação à "Casas dos Vampiros", seus clubes mais importantes e seu fantástico e oculto duelo de poder. São longas dinastias, com ramificações espalhadas por todos os cantos da Terra... Na verdade, creio que esse frade dominicano pertença a uma rede secundária e hoje sem grande importância como potência política. A Igreja já não tem tanta influência no Ocidente como anteriormente. Meu caso com ele no entanto é bastante pessoal também, pois ele assassinou pessoas de minha família. Eu quero lhe passar todas essas informações e rogar a seu sentido humanístico que as divulgue ou faça delas alguma coisa de útil para a humanidade. Mas não peço que o Senhor vá arriscar sua vida disputando forças com essa fera poderosa, covarde e tão potentemente amarada e protegida.

Pois bem, estamos chegando à resposta de sua pergunta inicial de como consegui localiza-lo. Foi obra do acaso, se é que existe esse tal acaso... Eu vinha conversando com um colega pela Avenida Ludwig Worrell, quando a cerca de 15 metros à nossa frente uma jovem de corpo esguio saiu correndo da porta de um açougue. Simultaneamente ouvimos um grito de "Pega, ladrão". Para infelicidade dela, havia um guarda a pouca distância que dominou-a com grande facilidade. Aproximamo-nos então e o inusitado do ocorrido me deu a certeza de que finalmente eu havia encontrado uma pista segura. A jovem tentara roubar cálculos biliares de boi, do açougueiro. Esses cálculos são obtidos nos matadouros ou em açougues e servem para infusões e tratamentos de diversas doenças, além de amuletos. São parecidos com pedra-pomes, cinza escuro e muito leves, do tamanho de ovos de passarinhos. O açougueiro havia dito para a garota que os dele não eram para vender, depois de colocá-los sobre o balcão. Ela então os apanhou e tentou fugir.

Depois de algum entendimento com o guarda, dei-lhe a entender que a garota parecia doente mental e que eu cuidaria dela. O argumento que ela usou com relação aos cálculos era de que eram para o tratamento de um tio que estava de cama, muito doente há vários meses. Eu então lhe propus que só a libertaria do guarda se ela me levasse até o tio, para que eu pudesse ver o estado dele e quem sabe, ajudá-lo como médico. Ela não teve alternativa e nos levou até a casa do doente. Por motivo de segurança pedi ao meu amigo que esperasse do lado de fora e entrei com a garota. O casarão não era dos piores, mas a desordem no interior era bastante grande. Todas as janelas estavam fechadas e com cortinas negras e um insuportável cheiro de mofo e roupas sujas pairava no ambiente. No quarto do tio, ela entrou vagarosamente com uma pequena vela e me deu passagem para entrar também. O quadro me congelou a boca do estômago. No centro do quarto, em um catre dos mais estranhos que já vi estava o corpo de um homem de idade impossível de ser avaliada, pois qualquer dos referenciais que normalmente utilizamos para deduzir a idade, nele eram como os de um ser de outro planeta, que tanto pode ter 50 quanto 200 anos... É a única forma que encontro para expressar o que vi. Tentei comportar-me normalmente. Ele dormia profundamente. Quando a vista ficou mais acostumada à escuridão, pude constatar que ele trajava o hábito dos monges dominicanos. Tomei cuidadosamente seu pulso. Não pulsava. Então perguntei à jovem se ele estava vivo. Ela disse que sim, mas que ele havia desmaiado mais uma vez, pois estava extremamente enfraquecido.[5] Sugeri então a ela que eu necessitaria urgentemente de um exame de sangue dele e imediatamente abri minha maleta e coletei material suficiente. Tomei o bloco de pedidos e perguntei a ela o nome do tio. "Nicholas Jacquier", ela respondeu. No entanto, me espírito científico só teria certeza absoluta de que realmente se tratava do famigerado padre vampiro após o resultado do exame hematológico. Então pedi à garota que levasse o exame em seu laboratório, que entrega no mesmo dia e com o qual tenho convênio. Em seguida ela deveria trazer imediatamente em meu consultório o resultado. O resto você sabe, pois ela arrumou outra confusão ao pegar o exame. O que na verdade foi um incidente providencial que te trouxe até aqui. Fiquei no consultório, esperando que ela voltasse. Só que ela é uma das escravas do padre, seu nome é Sibila e não sabe tomar decisões sem consultá-lo. Como eu não lhe dei tempo de falar com ele (que só acorda à noite), ela desesperou-se e tentou me eliminar."

Dito isto, o Dr. Paul René levantou a camisa e mostrou-me a barriga enfaixada e ensangüentada. Fora esfaqueado violentamente e não sabia se teria condições de resistir aos ferimentos. Poucos colegas seus sabiam da realidade dos fatos. E nenhum sabia da existência de um vampiro por traz de toda a trama. Ele perdera a grande oportunidade de acabar com a fera. Havia inclusive já preparado o material para empreender o trabalho quando Sibila voltasse com o exame. A tarefa é enormemente facilitada durante o dia, enquanto dormem e perdem as forças. À noite, no entanto, a coisa se complica bastante. Principalmente em noites de Lua Cheia. Em seguida o Dr. Paul pediu à esposa que buscasse o material que havia me prometido e ainda conversamos longamente sobre o conteúdo dos mesmos. Deu-me inclusive o endereço onde havia encontrado a besta humanóide, mas ambos sabíamos que sería inútil procurar novamente no mesmo local. Mesmo assim, eu iria para, quem sabe, encontrar algum indício. Fiquei distraído folheando os documentos, e em determinada altura resolvi fazer outra pergunta ao Dr. Paul. Quando ele não respondeu meu chamado, sua expressão suavemente sorridente e tranqüila me deu a certeza: estava morto. Do outro lado da cama, sua esposa fez um estranho sinal com uma das mãos apontando para o céu e a outra para a terra e deitou-se junto dele. Nesse momento, saí para tomar providências. O relógio marcava dez horas da manhã.

 

Voltar ao Menu