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Apresentação
Na noite de 5 de maio de 1985, cansados de uma longa escalada
ao cume do Pico da Bandeira, eu e Nelsinho resolvemos passar a noite num
misterioso hotel situado a alguns quilômetros do abrigo de alpinistas. Nós
pretendíamos dormir assim que o jantar acabasse, mas um outro hóspede do hotel
mudou nossos planos.
Sentando-se em nossa mesa, sem a menor cerimônia, o hóspede
- que se apresentou como um finlandês, mas cujo sotaque lembrava alguém dos
Balcãs - disse que se chamava Flamínio de Luna, e que tinha lido numa revista
uma reportagem sobre meu interesse por vampiros. Afirmou que tinha sido
testemunha de um caso de vampirismo com alguém que amava, e por causa disso
havia jurado fazer todo o possível para desmascarar o mito - criado pelos próprios
vampiros - de que tais criaturas não existem. Durante anos pesquisou suas
origens históricas, suas raízes no mundo de hoje, e as fórmulas para
identificar e combater um vampiro. Alto, cabelos brancos, vestido com muito mais
elegância do que o lugar ermo onde nos encontrávamos permitia, Flamínio a
todo momento lamentava a perda de Mata Ulm (cuja história vai contada na Quinta
Parte desse livro), afirmando ter sido este seu único amor nos muitos anos de
existência. Durante horas a fio ficamos ouvindo, fascinados, aquilo que nos
parecia ser uma grande esquizofrenia, mas uma esquizofrenia inteligente, onde as
menores peças faziam sentido.
No dia seguinte procurei Flaminio de Luna para conversarmos
mais sobre o tema, mas soube que ele havia partido. O caso não teria passado de
uma bela história para contarmos aos nossos amigos, quando recebi - duas
semanas mais tarde - o manuscrito de O MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO. O pacote,
entregue pelo correio, não trazia o endereço do remetente.
Meses depois, por acaso, encontrei no jornal CORRIERE DE LA
SERA uma notícia surpreendente, a respeito de uma série de assassinatos
ocorridos em Palermo, na Sicilia. As vítimas eram encontradas com a garganta
aberta, e sem um pingo de sangue. Apesar das autoridades locais atribuírem os
crimes a uma vendetta da Máfia, grande parte dos habitantes - principalmente os
mais velhos - juravam que tudo aquilo era obra de um feiticeiro, nascido em
1815, e do qual não se tinha notícia de haver morrido. Seu nome: Flamínio Di
Luna.
Pela descrição dos habitantes de Palermo, quero acreditar
que o finlandês do hotel e o assassino de Palermo são a mesma pessoa. Neste
caso, Flamínio (ou Flaminius) pertence aquela categoria de pessoas que se
rebelaram contra a própria natureza, mas não tem meios (ou coragem) para se
libertarem dela. Fornecendo a pista correta para sua destruição, Flamínio
deixa aberta a porta de seu renascimento.
Mais uma coisa: pedimos ao leitor que se aventurar por estas páginas,
que seja muito prudente ao tentar colocar em pratica qualquer ritual aqui
descrito. Depois da conversa com Flamínio de Luna, não me custaria nada
afirmar que os vampiros existem.
PAULO COELHO